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Crime ambiental e omissão mudam a paisagem do lago de Cana Brava



A ponte da Vila de Furnas é o retrato, a céu aberto, do que acontece por todo o ordenamento do leito do Lago de Cana Brava, especialmente à margem que contorna o município de Minaçu. A omissão do poder público em relação a responsabilidade dos impactos ambientais é grande, e não é de agora, e encontra repouso absoluto em décadas.


Num cenário onde há 15 anos era possível tomar banho e consumir as espécies naturais que ali eram criadas da corrente herdada pelo rio Maranhão, hoje é um deserto de lama, lodo e plantas derivadas do despejo de materiais orgânicos, as macrófitas.


Desde muito tempo, o Lago vem sofrendo mutações devido ao descarte de material orgânico às margens da Vila de Furnas, e não é só por parte da população que joga lixo à margem do rio Bonito, o impacto maior tem resposta num problema muito mais antigo.


Isso porque, por muito tempo, toda vez que a cidade sofria queda de energia, o esgoto que deveria ser tratado pela Saneago, era lançado in natura no Rio Bonito e, pouco mais tarde, no Lago de Cana Brava.


Hoje, dos 6 geradores capazes de bombear a estação em caso de interrupção de energia, 5 foram adquiridos. O último gerador foi licitado, comprado e entregue, porém não foi instalado.


“A Saneago informa que o processo licitatório foi finalizado e que o sexto grupo gerador já foi adquirido e entregue em Minaçu. A Companhia está finalizando as instalações elétricas”, diz em nota a própria Saneago. Ou seja, até agora, mais de 15 anos depois, os grupos geradores de energia, capazes de suprir a demanda em sua totalidade, ainda não foram concluídos.


E até que ponto a ausência desse grupo gerador pode influenciar no funcionamento de todo o sistema de Tratamento de Furnas?


Apesar de não haver até hoje geradores suficientes, a Saneago nega que haja envolvimento com a mudança de paisagem proveniente do descarte da Estação de Tratamento de Furnas. Ela alega em nota que: “A Saneago não desvia efluente não tratado para os corpos hídricos durante a rotina operacional”. De acordo com a concessionária, as Estações Elevatórias de Esgoto possuem extravasores – para proteger o sistema em situações pontuais de falhas”, afirma.


O fato é que o despejo de esgoto de qualquer natureza, clandestino ou não, no meio ambiente, é de responsabilidade da Saneago. Em 2014, ela assumiu o compromisso de investir 43 milhões de reais para que 100% dos domicílios da cidade fossem atendidos com saneamento básico, para evitar a contaminação dos efluentes. Atualmente apenas 52% da população conta com esse serviço.


Nesse mesmo ano, um estudo contratado pela Prefeitura de Minaçu comprovou que resíduos (lodo) gerados no processo de tratamento da ETA não recebiam qualquer tipo de tratamento, sendo retornados “in natura” para o meio ambiente, de forma inadequada. “O lodo gerado no processo de tratamento, atualmente, não recebe qualquer tipo de tratamento, sendo retornado “in natura” para o meio ambiente”, complementa.


Desde 2013, principalmente, as plantas derivadas do excesso de material orgânico, as macrofitas, já fugiam do controle; e a paisagem naquela altura já afastava a população das margens do Lago.


As deficiências na coleta e tratamento de esgoto em Minaçu, por parte da Saneago são antigas, assim como a inércia dos prefeitos que passaram. Desde 2002, o MP vem conduzindo uma série de recomendações a empresa; acordos foram firmados e multas foram estipuladas. E, até hoje, nenhum órgão de defesa do Meio Ambiente, a Engie, a Saneago, ou município ou o Estado, têm um Projeto de recuperação do Lago de Cana Brava.


Enquanto os órgãos de defesa se entendem, enquanto governos municipais negam a necessidade de recuperação da qualidade da água, o Lago de Cana Brava vem perdendo sua identidade. É só olhar e constatar!


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